Quando o mundo entra na Igreja

Talvez um dos conselhos que mais ouvi entre meus irmãos de fé seja este: “Cuidado com o mundo”. Este conselho bem intencionado, mas em parte mal entendido, tem como base alguns importantes textos bíblicos: Romanos 12.2; Tiago 4.4 e I João 2.15.

Derivam-se desses textos alguns dos seguintes pensamento e conselhos: “Nós não somos do mundo”; “Cuidado com as ‘coisas’ do mundo”; “O mundo está entrando na igreja”; “Fulano é um crente mundando” e etc.

Se você já ouviu, ouve e faz esse tipo de declaração for honesto, reconhecerá que em quase cem por cento dos casos as pessoas que fazem tais afirmações sobre a relação do cristão com o mundo, as fazem limitando-se a pensar no “mundo” em aspectos meramente culturais, como estilo musical, programas de televisão, tipo de roupa, adornos femininos; lugares a serem ou não frequentados, uso de linguagem apropriada, tipo de amizades, etc e etc. Certamente que alguns dos itens citados acima (bem analisados) podem se encaixar nas advertências de Paulo, Tiago e João, mas resumi-las a usos e costumes ou aspectos culturais é perder de vista a profundidade e grandeza da advertência dos mestres bíblicos quanto ao assunto.

Existem três palavras gregas para mundo na Bíblia: Kosmos: o mundo organizado, universo, a soma das coisas criadas. Oikouméne: significa terra habitada, os seres humanos (João 3.16). Por fim, a terceira palavra é Aion, que significa sistema de coisas; século, época, espírito de uma geração. Mundo no sentido de kosmos ou oikouméne, não tem caráter pecaminoso, mas aion tem, porque se refere a um sistema contrário a Deus. Dessa forma, quando os escritores bíblicos declaram: “Não vos conformeis com este mundo” ou “Não amem o mundo”, eles estão se referindo a um sistema anti-Deus e anti-Reino de Deus que opera no mundo. Isso nos aponta para algo bem mais sério do que a popular visão cristã de “mundo”.

O mundo entra na igreja por meio do crente quando este assume em sua vida valores e princípios anti-Deus que operam na sociedade. Quando assume a ganância material e faz do dinheiro seu deus; quando de forma consciente ou inconsciente vive-se de forma individualizada; quando pelo orgulho religioso ou não, desenvolve senso de superioridade e preconceitos; o mundo entra na igreja quando ignoramos e normalizamos os abismos sociais e a miséria econômica; crente mundano não é o que ouve a música não religiosa, mas aquele que o coração virou morada dos mais terríveis sentimentos; não é o que não aderiu a “moda evangélica” de se vestir, mas que transformou Deus em um mero meio de realizações pessoais; crente mundano é aquele que em nome do seu materialismo fecha seu coração e o bolso às necessidades básicas do próximo.

Quando olhamos para o “Não vos conformeis com este mundo” ou “Não amem o mundo” nessa perspectiva, chegamos à triste conclusão, que muitas são as igrejas e muitos são os cristãos que o “mundo” reina em suas vidas de forma imperceptível há muito tempo.

Weslei Pinha


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