Pilatos lavou mãos, Jesus lavou pés

As cidades dos tempos de Jesus principalmente as da Judeia não eram calçadas, as pessoas andavam sobre a terra solta com seus pés totalmente desprotegidos já que não haviam sapatos. Diante dessa combinação de poeira e pés desprotegidos desenvolveu-se a higiênica cultura do lava pés. Ao chegar a uma casa o visitante tinha seus pés lavados por um escravo a mando do anfitrião. Foi em meio à primeira ceia cristã (João 13) que Jesus vivenciou essa cultura numa posição diferente, como servo, lavando os pés dos discípulos.

Horas depois, Jesus foi preso e levado pela cúpula religiosa judaica a Pilatos para ser julgado e condenado à morte. Pressionado pelos líderes farisaicos e pelo apelo popular por sangue, Pilatos entregou Jesus para ser crucificado. Antes, tomou uma bacia com água e de forma dramática declarou sua “inocência” a todos lavando as mãos. Ao fazer isso Pilatos se utilizou de uma prática conhecida do próprio povo judeu. Deuteronômio 21 ordena que quando um morto for encontrado e ninguém saber quem o matou, então os líderes da cidade mais próxima em que o morto foi encontrado deveriam degolar uma novilha e lavar as mãos no sangue do animal, demonstrando assim sua inocência. Dessa forma, o cenário da paixão nos revela duas ações semelhantes e ao mesmo tempo profundamente distintas – O Cristo que como servo lava pés e o líder politico que lava as mãos.

Vejamos agora o que ambas atitudes tem a ensinar a comunidade de discípulos de Jesus:

1 – A ATITUDE DE AMBOS FALA DE RESPONSABILIDADE

Somente Pilatos podia determinar a pena capital na região da Judeia, e ele a fez em relação a Jesus. Mas quando lavou as mãos tentando demonstrar sua “inocência”, transferiu a responsabilidade (culpa) aos líderes religiosos e a multidão que gritava: “Solta Barrabás e crucifica Jesus”. Se Pilatos ao lavar as mãos buscou transferir responsabilidades, Jesus ao lavar os pés dos discípulos assumiu a responsabilidade negada pelos doze, para ensina-los sobre espírito humilde e cuidado sacrificial de uns para com os outros.

Que a comunidade de Jesus não transfira, não terceirize sua vocação e chamado, mas a cumpra com diligência, urgência, paixão e espírito voluntário.

2 – A ATITUDE DE AMBOS FALA DE PODER

Como já disse, os fariseus não tinham autorização para condenar ninguém à pena de morte, somente Pilatos tinha essa premissa. E assim o fez, usando seu poder, sua influência para o mal, para matar. Se Pilatos ao lavar as mãos usou seu poder para o mal, Jesus ao lavar os pés usou seu poder para o bem. Jesus tinha consciência do seu poder e o utilizou para o bem como sempre fez. Um simples gesto, mas tomado de grandeza e profundo significado.

Que a comunidade de Jesus use seu “poder” (influência) não como Pilatos, mas como seu Mestre!

3 – A ATITUDE DE AMBOS FALA DE SENTIMENTO

Ao lavar as mãos e entregar Jesus para ser crucificado Pilatos revelou medo. Medo de absolver Jesus das acusações e ter sua carreira política destruída. “Se soltas este, não és amigo de César” (João 19.12), provocavam os judeus. Se Pilatos lavou as mãos por medo, Jesus lavou os pés dos discípulos por amor. João nos revela que apenas esse, e não outro sentimento dominava o coração de Jesus naquele momento “…tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13.1).

Que a comunidade de Jesus não seja conhecida pelo ódio, intolerância e indiferença, sentimentos que nada tem haver com o Reino do nosso Cristo, mas que ela seja famosa, popular por seu amor, compaixão e graça.

Pilatos ou Jesus? Mãos ou pés?

Weslei Pinha


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