Há poder em nossas palavras?

A afirmação “Há poder em nossas palavras” não é encontrada em nenhum lugar das escrituras. Mesmo assim não são poucos os cristãos e até pastores que a utilizam como se fosse um versículo bíblico ou doutrina cristã. Quem  dessa afirmação se utiliza, crer que coisas boas ou ruins podem acontecer com base naquilo que falamos. Quantas vezes em meio a uma simples brincadeira ouvi pessoas afirmarem: “Cuidado as palavras tem poder, a bíblia diz que há poder em nossas palavras.” Creio que esse tipo de pensamento tem mais haver com técnicas de  autoajuda e misticismo cristão do que com teologia bíblica.

A expressão “Há poder em nossas palavras” tem sua origem na má interpretação de textos bíblicos (Provérbios 18.21; Tiago 3. 9,10; Marcos 11.23 e I Reis 17.1) que abrem portas para falsos ensinos, tais como: A Confissão Positiva, Determinismo e a moda evangélica “Profetize ao irmão que está ao seu lado” (Coisa que tenho a maior antipatia).

O entendimento de poder nas palavras humanas no movimento evangélico tem sua origem nos pastores americanos Essek William Kenyon (1867-1948) e Kenneth Hagin (1917-2003). Outro nome de destaque nessa crença é o do pastor sul coreano David Yonggi Cho (1936). No Brasil desde da popularização da teologia da prosperidade multiplicam-se os líderes das mais diferentes expressões do cristianismo que creem e ensinam sobre o uso do poder das palavras.

Analisemos os textos de Provérbios 18.21; Tiago 3. 9,10; Marcos 11.23; I Reis 17.1 e vejamos o que eles ensinam:

Provérbios 18.21 – A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto.

Aqui o sábio está falando da lei da semeadura por meio da língua. O mau uso da língua (Fofoca, calunias, julgamentos, detração) gera destruição e morte. Já seu bom uso gera paz, alegria, amor e vida. O texto nada tem haver com a materialização daquilo que falamos ou obtenção de bênçãos através do uso correto das palavras.

Tiago 3. 9,10 – Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim. 

Fica claro pelo contexto que Tiago ensina sobre a santidade da língua e não do poder das palavras como geradora de bênção divinas ou maldições diabólicas. Tiago fala da exclusividade da nossa boca para adoração a Deus e promoção do bem. A boca que exalta a Deus não pode ser de forma alguma instrumento de maledicência ou de quaisquer palavras condenas pelas escrituras.

Marcos 11.23,24 – Eu lhes asseguro que se alguém disser a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e não duvidar em seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, assim lhe será feito.

Jesus não ensina sobre os poder das palavras, mas sobre o poder de Deus manifestado através da oração da fé. Não é simplesmente falar ou desejar, mas orar, com o coração cheio de fé e inteiramente submisso a vontade de Deus, que segundo sua Soberania decide mover ou não o “monte”, a dificuldade, o problema. Leia I João 5.14

Mas e o caso de Elias que em I Reis 17.1, que falou, liberou uma palavra e aconteceu? 

O texto em questão diz: Vive o Senhor Deus de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra.

Com base nesse texto muitos acreditam que é só o crente determinar algo com fé e logo Deus assina em baixo (kkkk). Mas espere aí. Deus virou o que mesmo?!

Ao ler Tiago percebemos que Elias não deu tal ordem com base em sua indignação pessoal ou em uma vontade meramente individual. Muito pelo contrário, sua ordem é fruto de uma orientação Divina por meio da oração inteiramente submissa à vontade Deus, é o que afirma Tiago:

Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. E orou outra vez, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto. Tiago 5.17,18

Creio que as palavras tem poder de promover alegria e tristeza; paz e guerra; amor e ódio. Creio no poder da Palavra de Deus quando pregada por alguém ungido pelo Espírito. Creio pelas escrituras no poder terapêutico e curador das palavras, mas não creio que elas são capazes de materializar aquilo que falo, desejo ou determino. Crer dessa forma é dar a palavras humanas um poder que não lhes são atribuídas nas Escrituras.

Weslei Pinha


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