AMOR UTILITÁRIO

E cresceram os meninos, e Esaú foi homem perito na caça, homem do campo; mas Jacó era homem simples, habitando em tendas. E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó. Gênesis 25.27,28

Qual é a causa ou motivo do amor dos pais por seus filhos nesse texto? Certamente uma pergunta fácil de ser respondida. Isaque amava, tinha preferência por Esaú por ele ser caçador, essa habilidade de caçar colaborava bastante com as necessidades da casa. Qual pai não se alegra com um filho que colabora com os custos da família? Rebeca por sua vez tinha maior preferência pelo filho mais novo, Jacó. O texto diz que enquanto Esaú era alguém para além dos limites do lar, Jacó por sua vez era mais caseiro e como resultado disso auxiliava sua mãe nos serviços domésticos.

Isaque e Rebeca erraram como pais não só porque revelaram uma nítida predileção quanto aos filhos, algo nocivo ao ambiente familiar, mas porque também desenvolveram esse “amor” ou preferência com base em interesses pessoais. Deveriam ter amado seus filhos pelo simples fato de serem filhos e não pelos benefícios que lhes proporcionavam por suas capacidades e habilidades.

Eu acho muito interessante como o mundo e os homens continuam os mesmos. O erro ou pecado de Isaque e Rebeca, que chamo de “amor utilitário” é ainda mais comum em nossos dias. Amor utilitário é um falso amor, é amar com base em competências e habilidades. É amar não pelo que a pessoa É, mas pelo que ela FAZ. É si interessar por alguém não por suas qualidades morais, mas por sua beleza, riqueza, inteligência, influência, fama ou espiritualidade.

Isso nada mais é que a objetificação da pessoa. É quando sem perceber ou percebendo, transformamos as pessoas a nossa volta em meros objetos a serem usados. E quando estes perdem suas capacidades são logo descartados, assim como um micro-ondas que não mais atende as necessidades de uma casa. É exatamente isso que fazemos quando o que sentimos pelos outros é mero fruto de utilitarismo.

De forma bem pessimista, o escritor Paulo Brabo afirma em seu livro “A Bacia das Almas” que vivemos em um mundo que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Nossa tendência mais natural é amar as pessoas pelo que são capazes de fazer. Isso é tão verdade que muitos temem a aposentadoria e perda de suas capacidades, por que no fundo sabem que perda das habilidades os fará menos atraentes e menos dignos de amor aos olhos dos outros.

Paulo, o apóstolo, afirma que Jesus nos amou a despeito de qualquer competência, capacidade ou interesses. “Ele nos amou e se sacrificou sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). Ele nos amou sendo nós incapazes, deficientes, inabilitados, medíocres, incompletos, faltos e fracos. Esse é o perfeito amor desinteressado, que ama pelo simples fato ser. Esse tipo de amor está sem dúvidas em extinção, mas ainda pode ser encontrado em alguns poucos corações.

Weslei Pinha

 


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