Redes Sociais Segundo Mario Sergio Cortella

Se vale a ideia de Tom Jobim de que é impossível ser feliz sozinho, o mundo digital, em que as pessoas estão conectadas e compartilhando informações quase o tempo todo, seria o reino da felicidade? Não é bem assim.

É inegável que há um exibicionismo muito forte no universo das redes sociais, como se a pessoa devesse dar satisfação aos outros. Há a impressão de que se alguém não mostrar que está na praia, em uma cidade encantadora ou que está comendo um prato absolutamente delicioso, pode ser que as pessoas a admirem menos. Isso também decorre de um problema de autoafirmação que alguns têm (…).

Essa ideia de uma partilha exibicionista segue a lógica de que “Eu sou feliz, mas preciso mostrar e alguém tem que dizer que curtiu. Isso faz com que eu me sinta mais apreciado”. Mas o fato de eu me sentir apreciado não significa que eu esteja vivendo um momento com essa condição. Há pessoas que têm muito mais alegria em mostrar o que estão comendo do que na degustação daquele prato (…).

Há algo equivocado quando você começa a medir o seu nível de felicidade possível pelo número de seguidores que tem e, mais do que isso, chama-los de “amigos”. Outro dia, num debate, alguém dizia ter mais de 10 mil amigos. Eu disse: “Não é possível, não conheço ninguém que tenha mais de dez amigos”. Se você tiver mais de dez amigos, você não os tem. Você pode ter conhecidos, colegas, mas amigo é outra coisa, tem haver com o afeto dedicado.

A ideia de que eu preciso estar sendo visto para poder ser feliz, isto é, o anonimato como sendo resultante de um desprezo, de um abandono, pode sim, nesse mundo digital, infelicitar pessoas. Não é casual que as redes sociais tenham aumentado as perspectivas de suicídio em algumas sociedades. Se a pessoa não se sente reconhecida, lembrada, gostada pode ser conduzida a infelicidade profunda, que chega à tristeza e a depressão.

Texto de Mario Sergio Cortella, extraído do livro Felicidade foi-se embora?

Adaptado por Weslei Pinha


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