O PEQUENO GRUPO E A DESCENTRALIZAÇÃO DO TEMPLO

O livro de Atos dos Apóstolos, bem como as cartas paulinas nos apresentam de forma fiel a prática de vida dos primeiros cristãos. Essas informações vão desde suas crenças, devoção, ações evangelisticas, bem como forma e locais de suas reuniões. Sobre essa última prática, Lucas afirma em Atos 5.42:

“E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo.”

É valioso o relato de Lucas, visto que somos informados que nossos irmãos primitivos não viam o templo como único lugar de reunião para adoração e comunhão, mas também seus lares.

1 – A IGREJA PRIMITIVA NO TEMPLO

É preciso que se diga que o templo mencionado por Lucas em Atos 5.42, não é um templo cristão, construido pelos discípulos, mas trata-se do templo judeu, situado em Jerusalém.

Os discípulos do primiero século, residentes em Jerusalém faziam uso de uma parte do templo judáico, como nos apresneta Lucas em Atos 2.46; 3.1; 5.42; 22.17. Como o templo historicamente era o local de adoração a Deus do povo judeu, os cristãos de Jerusalém o ultilizavam com o objetivo de também cultar e ensinar.

Mas essa relação da Igreja Primitiva e o templo judeu não demorou muito, por pelo menos 2 motivos: PRIMEIRO A PERSEGUIÇÃO JUDAICA. Lucas afirma que após a morte de Estevão foi iniciada uma severa perseguição aos discípulos que estavam em Jerusalém.

Atos 8.1 – E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos.

Pela perseguição e ostilidade dos líderes judaicos, os discípulos deixaram de fazer uso do templo de forma frequente e pacífica como antes.

SEGUNDO DESTRUIÇÃO DO TEMPLO. Outro fator que determinou o fim de todas as relações entre a Igreja Primitiva e o templo, foi sua destruição. No ano 70 d.C, com a invasão do exército romano a Jerusalém, liderado pelo general Tito, os judeus foram massacrados e o templo foi destruido. Cumprindo assim a profecia de Jesus: Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. Mateus 24.2

2 – A IGREJA PRIMITIVA NAS CASA

Não ter um lugar exclusivo e “sagrado” para culto não incomodava os discípulos, eles tinham as casas. Nunca foram reféns do templo, como nos informa Lucas “…e nas casas…”. Nossos irmãos primitivos viam suas casas como espaços para adoração, comunhão e ensino das verdades de Cristo.

Lucas e Paulo nos confirma isso através de diversos textos: Atos 2.2; 2.46; 12.12; 16.32; 18.7-11; 20.20; Rm. 16.5; I Co. 16.19; Cl. 4.15; Fm. 1.2.

Destaque para 6 passagens:

• Atos 2.2 – “E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados”.
• Atos 12.12 – “E, considerando ele nisto, foi à casa de Maria, mãe de João, que tinha por sobrenome Marcos, onde muitos estavam reunidos e oravam”.
• Romanos 16.5 – “Saudai também a igreja que está em sua casa…”
• I Coríntios 16.19 – “As igrejas da Ásia vos saúdam. Saúdam-vos afetuosamente no Senhor áqüila e Priscila, com a igreja que está em sua casa”.
• Colossenses 4.15 – “Saudai aos irmãos que estão em Laodicéia e a Ninfa e à igreja que está em sua casa”.
• Filemom 1.2 – “E à nossa amada Áfia, e a Arquipo, nosso camarada, e à igreja que está em tua casa…”

Os textos acima refletem a realidade da igreja em quase 300 anos – Reuniões realizadas exclusivamente nas casas. As descobertas arqueológicas, confirmam que os lugares dedicados especificamente ao culto é posterior a metade do século III d.C. A igreja mais antiga descoberta até agora é a de Dura-Europos, que data aproximadamente do ano 270. Mesmo assim, essa igreja não passa de um pequena casa, como uma decoração muito simples, em nada se comparando aos templos cristãos de hoje.

A transição Casas/Templos, só se consolidou no século IV. O historiador cubano Justo González afirma que “Até a época de Constantino o culto cristão tinha sido relativamente simples. No princípio os cristãos se reuniam para adorar em casas particulares. Depois começaram a se reunir também em cemitérios, como as catacumbas romanas”. Só no século IV d.C com o governo de Constantino e seus sucessores que templos luxuosos são construídos e a prática das reuniões nos lares diminuem quase por completo.

Mesmo diante dessas mudanças, as concentrações nos lares não deixaram de existir no decorrer da história da igreja. Diversos grupos cristãos desenvolveram também esse hábito primitivo. Tais como: valdenses, pietistas, metodistas, bem como os batistas no Brasil através dos NEB’s na década de 80.

Hoje as igrejas brasileiras precisam, inspirados pelos primitivos cristãos, redescobrir as casas também, como espaços de adoração e discipulado. Para o pastor Ed René Kivitz em seu livro Quebrando Paradigmas “O Novo Testamento mostra que a vida cristã é uma vida de relacionamentos e os Pequenos Grupos são instrumentos capazes de possibilitar mutualidade e mobilização”.

“E todos os dias, no templo e nas casas…”

Weslei Pinha

BIOGRAFIA

GONZÁLEZ, Justo L. Era dos Gigantes. Editora Vida Nova. São Paulo-SP. 2002.

HURLBUT, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida. São Paulo-SP. 1979.

KIVITZ, Ed Rene. Quebrando Paradigmas. Editora Abba. São Paulo-SP. 2008

TUNALA, Marcio. Pequeno Grupo Multiplicador. Editora Convicção. São Paulo-SP. 2014


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